sábado, 28 de junho de 2008

Prólogo: A Rede e o Ser




A Rede e o Ser



Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado no final do século XX o que implicou em uma interdependência global;


Contexto histórico final do século XX:

  • O fim do estatismo soviético decreta o fim da guerra fria; o capitalismo passa por uma profunda reestruturação na qual há uma descentralização das empresas e sua organização em redes; uma individualização e diversificação cada vez maior das relações de trabalho e a intervenção estatal para desregular os mercados de forma seletiva e desfazer o estado de bem estar - social com diferentes intensidades e orientações, dependendo da natureza das forças e instituições políticas de cada sociedade;

Devido a essas tendências houve um acentuado desenvolvimento desigual que se caracteriza por uma liberação paralela de forças produtivas da revolução informacional e pela consolidação de buracos negros de miséria humana na economia global.


Implicações sociais:



  • As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e ao mesmo tempo sendo moldadas por ela.

  • O pratiarcalismo foi atacado e enfraquecido em várias sociedades, dessa forma há uma redefinição fundamental de relações entre mulheres, homens, crianças e conseqüentemente, da família, sexualidade e personalidade.


  • Os sistemas políticos estão mergulhados em uma crise estrutural de legitimidade e os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais encolhidos em seus mundos interiores.

Em mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca da identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social. A identidade está se tornando a principal e às vezes única fonte de significado. Cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que elas são ou acreditam que são.

  • A conexão e desconexão de indivíduos, grupos, regiões e até países pelas redes globais de intercâmbios é seguido de uma divisão entre o instrumentalismo universal abstrato e as identidades particulares historicamente enraizadas. Nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o ser;

  • Surge uma alienação entre o s grupos sociais e indivíduos que passam a considerar o outro um estanho, finalmente uma ameaça. Nesse processo, a fragmentação social se propaga, à medida que as identidades se tornam mais especificas e cada vez mais difíceis de compartilhar.

  • Castells acredita no poder libertador da identidade sem aceitar a necessidade de sua individualização ou de sua captura pelo fundamentalismo e que observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo diferente e melhor. Não oferecendo as respostas, mas suscitando algumas perguntas pertinentes. A busca da identidade é tão poderosa quanto à transformação econômica e tecnológica no registro da nova história.

Tecnologia, sociedade e transformação histórica:

As transformações tecnológicas e econômicas implicam em uma nova identidade do ser, em que o conhecimento e a informação assume uma grande importância para a formação desta nova identidade.

  • A tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta cientifica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo.

  • A sociedade não determina a tecnologia, mas pode sufocar seu desenvolvimento principalmente por intermédio do Estado. A tecnologia não determina a evolução histórica e a transformação das sociedades, mas incorpora a capacidade de transformação das mesmas, bem como os usos que estas decidem dar ao seu potencial tecnológico;

  • Por exemplo, no século XV quando o renascimento europeu estava plantando as sementes intelectuais da transformação tecnológica que dominaria o planeta três séculos depois, a China era a civilização mais avançada em tecnologia, segundo Mokyr. Mas esse avanço foi interrompido devido a três fatores: a inovação tecnológica ficou fundamentalmente nas mãos do Estado durante três séculos; após 1400, o Estado Chinês, sob as dinastias Ming e Qing, perdeu o interesse pela inovação tecnológica; outro aspecto deve ao fato de estarem empenhados em servir ao Estado, as elites culturais e sociais enfocavam as artes, as humanidades e a autopromoção perante a burocracia imperial. Desse modo, o que parece ser mais importante é o papel do Estado e a mudança de orientação da política estatal.

  • O Estado, por um lado, pode ser e sempre foi ao longo da história, na China e em outros países, a principal força de inovação tecnológica; do outro, exatamente por isso, quando o Estado afasta totalmente seus interesses do desenvolvimento tecnológico ou se torna incapaz de promovê-lo sob novas condições, um modelo estatista de inovação leva á estagnação por causa da esterilização da energia inovadora autônoma da sociedade para criar e aplicar tecnologia;

  • A intervenção Estatal na China e na União Soviética impediu o crescimento tecnológico, mas não causou o mesmo efeito no Japão.


  • A relação entre a tecnologia e a sociedade é que o papel do Estado, seja interrompendo, seja promovendo, seja liderando a inovação tecnológica, é um fator decisivo no processo geral, à medida que expressa e organiza as forças sociais dominantes em um espaço e uma época determinada.
  • A revolução tecnológica atual originou-se e difundiu-se em um período histórico da reestruturação global do capitalismo, para o qual foi uma ferramenta básica. Portanto, a nova sociedade emergente desse processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes países, conforme sua história, cultura, instituições e relação especifica com o capitalismo global e a tecnologia informacional.

    Informacionalismo, industrialismo, capitalismo, estatismo: modos de desenvolvimento e modos de produção:


  • O desenvolvimento e as manifestações dessa revolução tecnológica foram moldados pelas lógicas e interesses do capitalismo avançado;

  • A tentativa do estatismo soviético fracassou a ponto de haver o colapso de todo sistema, em grande parte, em razão da incapacidade do estatismo para assimilar e usar os princípios do informacionalismo;

  • O estatismo chinês foi bem-sucedido ao transformar-se num capitalismo liderado pelo Estado e ao integrar-se nas redes econômicas globais, aproximando-se mais do modelo estatal desenvolvimentista do capitalismo do leste asiático;

  • Reestruturação produtiva (fordismo e taylorismo)- produção em massa;

  • Informacionalismo é um novo modo de desenvolvimento, historicamente moldado pela reestruturação do modo capitalista de produção, no final do século XX;

  • As sociedades são organizadas em processos estruturados por relações historicamente determinadas de produção, experiência e poder: Produção é a ação da humanidade sobre a matéria (natureza); Experiência é a ação dos sujeitos humanos sobre si mesmos, determinada pela interação entre as identidades biológicas e culturais desses sujeitos em relação a seus ambientes sociais e naturais; Poder é aquela relação entre os sujeitos humanos que, com base na produção e na experiência, impõe a vontade de alguns sobre os outros pelo emprego potencial ou real de violência física ou simbólica;

  • A produção é organizada em relações de classes que definem o processo pelo qual alguns sujeitos humanos, com base em sua posição no processo produtivo, decidem a divisão e os empregos do produto em relação ao consumo e ao investimento. A experiência é estruturada pelo sexo/relações entre os sexos, historicamente organizada em torno da família e, até agora, caracterizada pelo domínio dos homens sobre as mulheres. As relações familiares e a sexualidade estruturam personalidade e moldam a interação simbólica;


  • O poder tem como base o Estado e seu monopólio institucionalizado da violência, difunde-se em toda a sociedade encerrando os sujeitos numa estrutura rigorosa de deveres formais e agressões informais;

  • A comunicação simbólica entre os seres humanos e o relacionamento entre esses e a natureza, com base na produção, experiência e poder, cristalizam-se ao longo da história em territórios específicos e assim geram culturas e identidades coletivas;

  • A relação entre a mão-de-obra e a matéria no processo de trabalho envolve o uso de meios de produção para agir sobre a matéria com base em energia, conhecimentos e informação. A tecnologia é a forma especifica dessa relação;

  • O produto do processo produtivo é usado pela sociedade de duas formas: consumo e excedente. As estruturas sociais interagem com os processos produtivos determinando as regras para a apropriação, distribuição e uso do excedente. Essas regras constituem modos de produção, e esses modos definem as relações sociais de produção, determinando a existência de classes sociais;

  • No século XX- dois modos predominantes de produção: o capitalismo e o estatismo. No capitalismo, a separação entre os produtores e seus meios de produção, a transformação do trabalho em commodity e a posse privada dos meios de produção. No estatismo, o controle do excedente é externo à esfera econômica: fica nas mãos dos detentores do poder estatal. O capitalismo visa maximização de lucros. O estatismo visa à maximização do poder, ou seja, o aumento da capacidade militar e ideológica do aparato político;

  • As relações sociais de produção e, portanto, o modo de produção determinam a apropriação e os usos do excedente;

  • Os próprios níveis de produtividade dependem da relação entre a mão-de-obra e a matéria, como uma função do uso dos meios de produção pela aplicação de energia e conhecimentos, é caracterizada pelas relações técnicas de produção, que definem modos de desenvolvimentos;

  • Cada modo de desenvolvimento é definido pelo elemento fundamental à promoção da produtividade no processo produtivo;

  • No novo modo informacional de desenvolvimento, a fonte de produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de processamento da informação e de comunicação de símbolos;

  • O informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico, ou seja, a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação. É a busca por conhecimentos e informação que caracteriza a função da produção tecnológica no informacinalismo;

  • A tecnologia e as relações técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, penetrando no poder e na experiência e modificando-os. Dessa forma, os modos de desenvolvimentos modelam toda a esfera de comportamento social, inclusive a comunicação simbólica.

    O informacionalismo e a perestroyka capitalista:

  • O fator histórico mais decisivo para a aceleração, encaminhamento e formação do paradigma da tecnologia da informação e para a indução de suas conseqüentes formas sociais foi/é o processo de reestruturação capitalista, empreendido desde os anos 80, de modo que o novo sistema econômico e tecnológico pode ser adequadamente caracterizado como capitalismo informacional;

  • A inovação tecnológica e a transformação organizacional com enfoque na flexibilidade e na adaptabilidade foram absolutamente cruciais para garantir a velocidade e a eficiência da reestruturação;

  • O informacionalismo está ligado á expansão e ao rejuvenescimento do capitalismo, como o industrialismo estava ligado a sua constituição como modo de produção;

  • O processo de reestruturação teve manifestações muito diferentes nas regiões e sociedade de todo o mundo;

  • Embora a reestruturação do capitalismo e a difusão do informacionalismo fossem processos inseparáveis em escala global, as sociedades agiram/reagiram a esses processos de formas diferentes, conforme a especificidade de sua história, cultura e instituições;

O ser na sociedade informacional:



  • As novas tecnologias da informação estão integrando o mundo em redes globais de instrumentalidade. Mas a tendência social e política característica da década de 1990 era a construção da ação social e das políticas em torno de identidades primárias. Os primeiros passos históricos das sociedades informacionais parecem caracterizá-las pela preeminência da identidade como seu princípio organizacional;

A busca de uma nova identidade:


  • O poder crescente da identidade está relacionado ao macro processo de transformação institucional que estão ligados, em grande medida, ao surgimento de um novo sistema global. Correntes muito difundidas de racismo e xenofobia na Europa Ocidental podem ser relacionadas a uma crise da identidade ao tornar-se uma abstração, ao mesmo tempo em que as sociedades européias, embora vendo sua identidade obscurecida, descobriram nelas mesmas a existência duradoura de minorias étnicas;

  • O surgimento do fundamentalismo religioso também parece estar ligado tanto a uma tendência global como a uma crise institucional;

  • Quando a Rede desliga o Ser, o Ser, individual ou coletivo, constrói seu significado sem a referência instrumental global.


    Esquema/fichamento: CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Traduzido por Roneide Venâncio Majer. 6ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 39-66.

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