
Cibercultura
- As atividades humanas abrangem, de maneira indissolúvel, interações entre:
Pessoas vivas e pensantes;
Entidades materiais naturais e artificiais
Idéias e representações.
- É impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo;
- Supondo que realmente existam três entidades- técnica, cultura e sociedade- em vez de enfatizar o impacto das tecnologias, poderíamos igualmente pensar que as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura. Mas a distinção traçada entre cultura, sociedade e técnica só pode ser conceitual;
- As verdadeiras relações, portanto, não são criadas entre a tecnologia e a cultura, mas sim entre um grande número de atores humanos que inventam, produzem, utilizam e interpretam de diferentes formas as técnicas.
"A técnica" ou "as técnicas"?
- As técnicas carregam consigo projetos, esquemas imaginários, implicações sociais e culturais bastantes variados. Sua presença e uso em lugar e época determinados cristalizam relações de força sempre diferentes entre seres humanos;
- Por trás das técnicas agem e reagem idéias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda gama dos jogos dos homens em sociedade;
O desenvolvimento das cibertecnologias (cultura virtual) é encorajado pelos Estados que perseguem a potência, em geral, e a supremacia militar em particular;
- Mas também respondem aos propósitos de desenvolvedores e usuários que procuram aumentar a autonomia dos indivíduos e multiplicar suas faculdades cognitivas
A dificuldade de analisar concretamente as implicações sociais e culturais da informática ou da multimídia é multiplicada pela ausência radical de estabilidade neste mundo;
- Os laboratórios travam uma disputa de criatividade ao conceber mapas dinâmicos do fluxo de dados e ao desenvolver agentes de software inteligentes, ou knowbots. Todos esses são fenômenos que transformam as significações culturais e sociais das cibertecnologias no fim dos anos 90;
- Quando o digital comunica e coloca em um ciclo de retroalimentação processos físicos, econômicos ou industriais anteriormente estanques, suas implicações culturais e sociais devem ser reavaliadas sempre;
A tecnologia é determinante ou condicionante?
- A técnica é um produto humano produzido por uma determinada sociedade, por uma determinada cultura;
- As técnicas determinam a sociedade ou a cultura? – uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas;
- Não há uma "causa" identificável para um estado de fato social ou cultural, mas sim um conjunto infinitamente complexo e parcialmente indeterminado de processos em interação que se auto-sustentam ou se inibem;
- Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença;
- A prensa de Gutenberg não determinou a crise da reforma, nem o desenvolvimento da moderna ciência européia, tampouco o crescimento dos ideais iluministas e a força crescente da opinião pública no século XVIII- apenas condicionou-as;
- Uma técnica não é boa nem má, tampouco neutra, já que de um lado abre e de outro fecha o espectro de possibilidades. Não se trata de avaliar seus "impactos", mas de situar as irreversibilidades às quais um de seus usos nos levaria;
- Nestas zonas de indeterminação onde o futuro é decidido, grupos de criadores marginais, apaixonados, empreendedores audaciosos tentam, com todas as suas formas, direcionar o devir;
A aceleração das alterações técnicas e a inteligência coletiva
- Revolução tecnológica torna obsoleto o conhecimento do homem ou mesmo a existência de sua profissão- para as classes sociais e regiões do mundo que não participam da efervescência da criação, produção e apropriação lúdica dos novos instrumentos digitais, para todos esses a evolução técnica parece ser a manifestação de um "outro" ameaçador;
"novas tecnologias" recobre na verdade a atividade multiforme de grupos humanos, um devir coletivo complexo que se cristaliza sobretudo em volta de objetos materiais, de programas de computador e de dispositivos de comunicação ;
- Quanto mais os processos de inteligência coletiva se desenvolvem melhor é a apropriação, por indivíduos e por grupos, das alterações técnicas, e menores são os efeitos de exclusão ou de destruição humana resultantes da aceleração do movimento tecno- social. O ciberespaço, dispositivo de comunicação interativo e comunitário, apresenta-se justamente como um dos instrumentos privilegiados da inteligência coletiva;
Obs.: Ao organizar, ao compartilhar as redes é que se evidencia a inteligência coletiva e esta é pontecializada quando se constrói algo.
A inteligência coletiva, veneno e remédio da cibercultura
- Vemos surgir na órbita das redes digitais interativas, diversos tipos de formas novas:
De isolamento e de sobrecarga cognitiva (estresse pela comunicação e pelo trabalho diante da tela)
De dependência (vício na navegação ou em jogos em mundos virtuais);
De dominação (reforço dos centros de decisão e de controle);
De exploração (em alguns casos de teletrabalho vigiado);
- Processos de inteligência coletiva desenvolvem-se de forma eficaz graças ao ciberespaço, um de seus principais efeitos é o acelerar cada vez mais o ritmo da alteração tecno-social;
A inteligência coletiva que favorece a cibercultura é ao mesmo tempo um veneno para aqueles que dela não participam e um remédio para aqueles que mergulham em seus turbilhões e conseguem controlar a própria deriva no meio de suas correntes.
Esquema/fichamento: LÉVY, Pierre. Cibercultura. Traduzido por Carlos Irineu da Costa 2ª Ed. São Paulo: 34, 2000. p.21-30.

Um comentário:
Tenho pesquisaado a respeito e este texto contribuiu. Obrigada.
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